Vivemos tempos em que o caos parece ter se tornado parte da rotina. Em meio a atendimentos no consultório, reflexões pessoais e relatos clínicos, um pensamento ecoou de forma intensa e inquietante: como oferecer a alguém a possibilidade de manter a calma em meio ao caos?
Essa pergunta não é simples. Ela nos atravessa, provoca e nos convida a uma reflexão profunda sobre nossa forma de lidar com o mundo e, principalmente, conosco.
O cenário atual contribui constantemente para estados de tensão e sobrecarga emocional. O trânsito intenso em grandes centros, as exigências do trabalho, os conflitos familiares, a criação dos filhos e até as interações sociais podem se tornar fontes diárias de estresse. Quando não estamos firmes internamente, corremos o risco de sermos influenciados por situações ou pessoas que, muitas vezes sem perceber, acabam por nos retirar a paz.
A verdade é que as pessoas só têm o poder de nos desestabilizar quando entregamos a elas essa força. Quando não há clareza emocional, qualquer estímulo externo pode se transformar em um gatilho.
Você reconhece seus gatilhos emocionais?
Uma pergunta essencial nesse processo é: você consegue identificar quais momentos, situações ou pessoas funcionam como gatilhos emocionais na sua vida?
Muitas vezes, entramos em conflitos que não são nossos. Compramos brigas desnecessárias, assumimos dores que não nos pertencem e reagimos de forma impulsiva. Como diz o ditado popular:
“Compro um boi para não entrar em uma briga, mas pago uma boiada para não sair dela.”
Nesse movimento, não apenas nos prejudicamos emocionalmente, como também impactamos negativamente aqueles que estão ao nosso redor. O caos externo começa a se intensificar quando o caos interno não é reconhecido.
Quando a calma começa pelo autoconhecimento.
Manter a calma em momentos desafiadores exige, antes de tudo, autoconhecimento. É fundamental identificar pensamentos automáticos, emoções recorrentes e ambientes que funcionam como agentes estressores. Sem essa consciência, tendemos a repetir padrões que nos levam sempre ao mesmo lugar: exaustão, irritação e sofrimento emocional.
Autoconhecer-se não significa eliminar emoções difíceis, mas aprender a lidar com elas de forma mais consciente e saudável.
Em muitos momentos, será necessário silenciar — silenciar o barulho externo e, principalmente, o barulho interno. Quando aquietamos a mente, conseguimos observar com mais clareza aquilo que realmente está acontecendo dentro de nós. É nesse espaço de pausa que novas possibilidades surgem.
Existem outras formas de responder
Nem todo problema exige uma reação imediata. Nem todo conflito precisa ser enfrentado no calor da emoção.
Quando silenciamos, percebemos que existem diferentes formas de responder a uma mesma situação — e essa percepção muda tudo. Estar aberto ao novo, à compreensão e à flexibilidade emocional pode, no início, parecer difícil. No entanto, com o exercício contínuo, passamos a enxergar essas mudanças como evolução.
Aprendemos que maturidade emocional não está em reagir, mas em escolher conscientemente como agir.
Vencer a si mesmo é o maior desafio
Talvez o maior desafio humano seja vencer a si mesmo. Nosso cérebro, muitas vezes, nos sabota com pensamentos negativos, antecipações catastróficas e interpretações distorcidas da realidade. Quando acreditamos em tudo o que pensamos, perdemos o controle emocional.
Manter a calma em meio ao caos exige compreender que a mudança da realidade externa começa por uma mudança interna. Não podemos controlar tudo o que acontece ao nosso redor, mas podemos aprender a regular nossas emoções, pensamentos e comportamentos.
Calma não é ausência de caos, é presença dela em meio ao caos.
A calma não significa que o caos deixará de existir. Ela representa a capacidade de permanecer consciente, centrado e emocionalmente regulado mesmo diante das adversidades.
Quando desenvolvemos essa habilidade, deixamos de ser reféns das circunstâncias e passamos a ser protagonistas da nossa própria história emocional.
Que possamos, diariamente, exercitar o silêncio interno, o autoconhecimento e a autorresponsabilidade emocional. Afinal, a verdadeira calma não está fora — ela nasce dentro de nós.
Por Jabner Lima
Psicólogo CRP 18/06577
